14/04/2026

Auto de Infrassombração

Relatos da sala dos auditores

Carlos Eduardo sempre fora conhecido como um auditor fiscal disciplinado, metódico e, acima de tudo, racional. Durante anos, ele atuou na fiscalização do trânsito de mercadorias, enfrentando estradas, caminhões e situações imprevisíveis com uma postura firme. Nada parecia abalá-lo, até o dia em que um sonho, durante o seu período de descanso no dormitório do Posto Fiscal, mudou completamente o rumo da sua trajetória na Secretaria da Fazenda.

O susto que ele tomou naquele sonho, envolvendo o policial conhecido pelo apelido de Zeca Leão, uma pessoa com histórias mal explicadas, comportamento excêntrico e, por que não dizer, perturbador, fez com que ele pedisse transferência. Curiosamente, Zeca Leão também solicitou transferência pouco tempo depois. Alegou razões pessoais, embora muitos acreditassem tratar-se de algo mais próximo da superstição. Coincidência ou não, ambos acabaram deixando para trás o ambiente das estradas e assumiram funções no prédio da Inspetoria.

Carlos Eduardo foi designado para a fiscalização do comércio, uma atividade que exigia atenção minuciosa aos detalhes, numa época em que os livros fiscais eram auditados um a um, manualmente, e os autos de infração eram lavrados à mão, exigindo muita atenção e paciência. Ele trabalhava na sala dos auditores, localizada no primeiro andar da Inspetoria, na Avenida Sampaio, nº 17, no centro de Feira de Santana. O prédio, com toda a sua história, carregava um silêncio peculiar que se tornava sepulcral ao cair da noite.

Alguns colegas o avisaram de que o prédio era mal-assombrado. Não se sabia se por contribuintes que voltavam do além para recorrer de autos de infração ou se por antigos colegas que haviam trabalhado naquela sala e ainda não tinham se apercebido de que aquilo não lhes pertencia mais. Carlos Eduardo, a princípio, não acreditou em nada daquilo, pois achou que era apenas brincadeira, e nada o impediria de trabalhar até mais tarde, quando o silêncio no prédio favorecia sua concentração.

Entretanto, com o passar dos dias, começaram a surgir pequenos indícios que apontavam em outra direção: ruídos sem explicação, portas rangendo, o som de passos, cadeiras que pareciam se mover sozinhas, como se alguém invisível buscasse um lugar para se sentar. Ainda assim, Carlos Eduardo resistia em acreditar. Azar o dele!

Numa noite de sexta-feira, sua vida e suas crenças iriam mudar para sempre, mais uma vez. Os colegas foram saindo pouco a pouco e o deixaram sozinho. Ele estava tão envolvido em analisar os documentos e formalizar o auto de infração que não notou que as horas haviam avançado, que havia ficado só e que o prédio estava completamente vazio. O silêncio era absoluto. Alguém que saíra por último deixara sobre a mesa dele as chaves da porta para que ele trancasse tudo quando fosse embora.

Quando ouviu o barulho de passos no corredor, ele sorriu, aliviado, pois era a prova de que ainda restara alguém para lhe fazer companhia. No entanto, os passos pararam subitamente ao se aproximarem da porta. A luz do corredor iluminava e deixava perceber a sombra dos pés de alguém do outro lado. O que o intrigou foi o fato de a pessoa parar abruptamente. Ele colocou sobre a mesa de trabalho os papéis que segurava, levantou-se e caminhou na direção da porta. Naquele momento, viu a maçaneta começar a girar lentamente, como se a pessoa tivesse enfim resolvido entrar na sala.

Com o intuito de dar um susto no suposto colega, ele se adiantou, girou a maçaneta rapidamente e escancarou a porta. Para sua surpresa, não havia ninguém do outro lado, nem junto à porta, nem no corredor. Um calafrio percorreu seu corpo, e ele percebeu que a maçaneta estava estranhamente fria, completamente gelada. Que infortúnio!

Ali, estático, observando o corredor, ele viu as luzes piscarem três vezes, ouviu o ranger dos pés de uma cadeira numa sala na outra extremidade, notou a maçaneta da porta girar e ela se abrir completamente, porém sem que qualquer pessoa aparecesse. Seu sangue gelou. Ele soltou a maçaneta, sua boca ficou completamente seca e ele prendeu a respiração.

Parado na porta, ele pôde perceber um ar gelado que veio da outra sala e soprou em sua direção. Foi como se algo passasse por ele e se encaminhasse para sua mesa. Antes que tivesse tempo de se voltar, pôde ouvir o som de sua cadeira, como se alguém estivesse se sentando nela. Ele, depois de se revestir de uma coragem que não tinha, virou-se para a mesa, desviou o olhar da cadeira, recolheu todos os papéis, colocou-os em sua pasta e saiu da sala, caminhando pelo corredor em direção à saída.

Seus cabelos se arrepiaram quando a porta, delicadamente, se fechou atrás dele, e lhe veio a sensação de que algo gélido estava de pé bem ao seu lado, como se desejasse acompanhá-lo. Sua esperança de que tudo acabaria bem foi se desvanecendo, pois lembrou-se de quem vira no posto policial da portaria do prédio naquela tarde: sim, ele mesmo, o famigerado Zeca Leão.

Seguir pelo corredor, descer as escadas e sair pela porta principal com a sensação de alguém caminhando ao seu lado foi aterrador. Carlos Eduardo chegou do lado de fora completamente pálido, com o corpo gelado e os olhos esbugalhados. Caminhou até o carro que havia deixado estacionado em frente à Inspetoria e imaginou o pior ao avistar outra espécie de assombração.

Encostado em um carro próximo ao seu estava Zeca Leão, com o olhar ardiloso e enigmático de quem espera uma vítima e sabe o que vai acontecer. Ele sorriu, exibindo os dentes enormes, olhou para o primeiro andar do prédio, na direção da vidraça da sala dos auditores, e comentou: eles não deixaram o senhor fazer o auto de infração, não foi, doutor?

Carlos Eduardo, com uma coragem fingida, olhou na mesma direção e, tentando desconversar, falou: minha nossa, esqueci a luz da sala acesa.

Zeca balançou a cabeça, estreitou os olhos, fitando Carlos Eduardo, voltou a sorrir exibindo os dentes e completou: não volte lá e não se arrisque, doutor, pois tudo tem a sua hora! Quando chega a hora, todos vão embora. Toda noite é assim.

Sejam contribuintes ou auditores, eles cuidam da sala e eles mesmos fecham as cortinas, apagam a luz e vão embora. Mal terminou a frase, e os dois viram as cortinas se agitarem, as luzes se apagarem e a sala mergulhar na escuridão.

Zeca então rangeu os dentes, deslizou as unhas, arranhando a porta do carro, olhou para o céu, depois para Carlos e finalizou: eu não lhe disse, doutor? É chegada a sua hora!

Carlos Eduardo, suando frio, assombrado e engasgando as palavras, só teve tempo de dizer: Vade retro.

(*) Auditor Fiscal, Sefaz/BA.

compartilhar notícia

Comentários

Gostaria de dar sua opinião sobre o assunto? Preencha os campos abaixo e participe da discussão