18/06/2026

Valmir Oliveira conta histórias do trânsito de mercadorias

Valmir Nogueira de Oliveira(*)

Drogas – De forma diferente de outras unidades fiscais, nesse posto não tínhamos a presença de policiais militares para nos dar apoio. Certo dia, estando com um colega mais experiente em uma das pistas de desembarque, ele abordou um homem que descera de um ônibus com uma sacola muito comprida, e pediu que a bolsa fosse aberta para analisar o seu conteúdo, quando o sujeito largou o volume no chão e saiu em disparada. O colega gritou para que eu levasse a bagagem para o posto fiscal e saiu em desabalada carreira em perseguição ao possível meliante pela rodoviária e depois pelo terminal de ônibus urbano.

Tempos depois, após o retorno do colega, que não conseguiu capturar o homem, abrimos o volume, constatando que se tratava de maconha, sendo realizada a ocorrência no posto policial existente na rodoviária. Porém, revoltado por não ter logrado êxito na captura do sujeito, o colega procurou a imprensa para narrar o ocorrido, inclusive fornecendo a descrição do fujão, mesmo com as alegações de todos nós que aquela atitude poderia gerar alguma represália por parte dos traficantes.

Passarinhos – Um dos funcionários mais antigos do local, além de já ser bem idoso, era um pouco fanho, o que muitas vezes dificultava aos interlocutores entenderem o que ele pronunciava. Numa ocasião, ao interpelar um sujeito simples que chegava do interior do estado, começou com as seguintes palavras:

- Bom dia, aqui é da “fixcalijação”, sou da “fixcalijação”, o que o senhor está transportando?

Pelo visto, sem entender o que o que ocorria e talvez pensando que aquele senhor estava pedindo um auxílio, ele simplesmente o ignorou, seguindo seu caminho. Exasperado, o colega segurou o camarada, mostrou-lhe a identificação de agente fiscal e novamente perguntou o que ele estava conduzindo, ao que o passageiro, de forma ríspida, respondeu:

- Rola!

Ao que o colega, a ponto de ter um colapso nervoso, gritou:

- Me respeite, porque eu sou uma autoridade! Abra agora sua sacola, para que eu veja qual é a mercadoria que o senhor está transportando!

Obedecendo ao comando, o sujeito abriu os volumes, mostrando o conteúdo, que nada mais era que várias rolinhas, salgados e espetadas, para ir vender na feira de São Joaquim.

FISCALIZAÇÃO VOLANTE

Aguaceiro – No início da década de 1980, a comunicação com a sede e entre as unidades fiscais da capital era realizada por meio do serviço de rádio. Tínhamos um colega, que apresentava forte rouquidão ao falar, o que gerou o apelido de Pato Rouco, que o deixava muito exasperado.

Num dia de muita chuva em Salvador, vários veículos começaram a parar nas poças de água. Quando ouvimos uma solicitação de ajuda de uma das viaturas, com um colega dizendo que se encontrava sem poder seguir viagem, porque o carro havia interrompido e estavam ilhados, ao que um engraçadinho sugeriu através do rádio:

- Vai nadando, pato!

Revoltado, o colega disse vários impropérios, afirmando que não iria descansar enquanto não descobrisse quem fora o responsável pela ação desrespeitosa.

POSTO FISCAL RÓTULA DO AEROPORTO

Ameaça – Num fim de tarde, ao seguirmos à distância um caminhão carregado que passara sem fazer a parada obrigatória no posto, chegamos a uma empresa que ficava localizada no bairro de Itinga, em Lauro de Freitas, quando tivemos um desfecho frustrante. Como a equipe de plantão era pequena, normalmente fazíamos esse tipo de ação apenas com um preposto fiscal e um policial militar. Nesse caso saí com um soldado da PM, que não portava arma. Ao entramos no estabelecimento para solicitar a apresentação da nota fiscal da carga transportada (material de limpeza), fomos recebidos pelo responsável da empresa, que em companhia de seguranças, nos ameaçaram e nos botaram para fora. Impossibilitados de qualquer reação, sequer telefonar pedindo apoio, regressamos para o posto fiscal.

Ainda bem que no final tivemos um resultado bastante satisfatório, pois ao voltar para o posto elaborei um termo de ocorrência bem circunstanciado, quando requeri uma ação fiscal exemplar junto ao contribuinte, que apresentei no dia seguinte logo cedo na delegacia fiscal. Como resultado, após uma fiscalização completa no local, foi lavrado o competente auto de infração.

Tiro no pé – Um soldado que atuou nesse posto, por ser muito forte, usava como alcunha o nome de um boxeador norte-americano muito famoso na época. Isso até o dia que alguém comentou que o referido lutador era homossexual, o que o fez parar de usar o nome do boxeador.

Ele se excedeu quando se dirigiu a uma área próxima ao posto onde alguns meninos costumavam jogar bola, com a intenção de parar a brincadeira. Para tanto, pegou a bola e aos gritos exortou os garotos a não mais usarem aquele local para suas travessuras. E para encerrar a lição, sacou o revólver e deu um tiro, com a intenção de furar a bola. Aconteceu que devido à afobação, ele terminou errando o alvo, acertando a bala no próprio pé. Por sorte, o tiro foi de raspão e não provocou nada grave. Bom que esse fato lhe serviu de lição dali por diante...

POSTO FISCAL BENITO GAMA

Haja stress – Numa noite, ao dirigir-me para a unidade do posto onde ficava o refeitório, avisei que iria demorar um pouco lá conversando com os demais colegas, enquanto jantávamos. Ocorreu que um colega, que era muito sério e circunspecto, ficou em dúvida a respeito de uma nota fiscal e ao invés de mandar alguém levar o documento para que eu analisasse a situação de imediato, segurou o caminhão enquanto aguardava o meu retorno.

Quando regressei e verifiquei a documentação fiscal, mostrei para ele que não havia nenhuma irregularidade que justificasse a apreensão da carga, orientando-o a proceder à devida liberação do caminhão. O motorista, que estava por demais chateado com a demora, quando constatou que não havia justificativa para tanta perda de tempo, ao receber os documentos, gritou para o colega:

- Na próxima vez vá sacanear a sua mãe!

O colega, que tinha a maior devoção pela sua santa mãe, saiu de dentro do posto e partiu para agredir o motorista, o que gerou um grande bafafá, o qual somente depois de muito custo conseguimos contornar.

Plantão dobrado – Pouco tempo depois de ter assumido o trabalho, recebi uma ligação de uma senhora de Salvador, que queria conversar com o marido. Respondi que o plantão do colega havia se encerrado naquela manhã e que ele já não se encontrava mais na unidade fiscal. Quando falei sobre o telefonema, alguns colegas que já haviam trabalhado com ele se entreolharam e falaram para mim:

- Rapaz, só queremos ver como é que você vai resolver esse problema, porque há muito tempo ele informou à família que seus plantões eram dobrados, isto é, ao invés de 5X10 (cinco dias de plantão por dez dias de folga) ou 10X20, eram ao contrário, isto é, 10x5 ou 20X10. Como ele mantinha duas famílias, se arranjava desse jeito, para se acertar com cada uma delas. Sei que de forma inocente coloquei o colega numa encrenca danada e quando nos vimos dias depois ele me disse que a briga tinha sido feia, mas que ele tivera que se adequar à nova situação...

POSTO FISCAL EDUARDO FREIRE

Cadê o queijo? – Geralmente nesse posto quando o final do plantão se aproximava, comprávamos alguns itens que eram encontrados no sul do estado, a exemplo de queijos e manteiga, ambos de muito boa qualidade e com preços atrativos. Identificávamos nossas compras e estocávamos na geladeira, para transportar devidamente embalados em caixas térmicas ao regressarmos para casa.

Numa madrugada, quando começamos a preparar nossas sacolas e as compras, para a viagem de regresso, qual foi a nossa surpresa ao descobrirmos que quase todas as nossas compras haviam sumido. Um funcionário terceirizado nos alertou que deveria ter sido a cozinheira, que morava perto e todos os dias ia preparar as nossas refeições. Pois não é que era verdade? Quando um colega e um policial chegaram na casa da criatura, quase todas as nossas compras se encontravam lá, uma vez que ela já havia consumido uma pequena parcela. Os produtos ainda restantes foram levados de volta e posteriormente a cozinheira foi demitida.

Aos trancos e barrancos – As nossas viagens para os plantões no interior do estado eram feitas em ônibus ou em carros próprios. Neste último caso, dividíamos tanto o combustível como fazíamos o revezamento no volante, principalmente nos deslocamentos mais longos, como nos plantões nesse posto. Num retorno em que eu havia ido com o meu carro, uma Chevrolet Ipanema, voltei com um colega. Acertamos para ele vir dirigindo até a hora do almoço, enquanto eu pegaria na parte da tarde.

Acontece que após viajarmos umas duas horas o carro começou a falhar até parar definitivamente, com o tanque vazio. Após pequena discussão sobre a quem cabia a culpa, deixei ele tomando conta do carro e peguei carona com um caminhoneiro até o posto de gasolina mais próximo, onde comprei um garrafão de combustível e retornei para o local. Para nosso infortúnio, o carro resolveu não pegar e tive de repetir o expediente, quando, seguindo a sugestão do caminhoneiro, parei próximo a um pequeno posto fiscal interno, e então um colega que entendia de mecânica automotiva, nos socorreu. Com mais gasolina ele fez o veículo “pegar”, para podermos seguir viagem.

Logo depois do almoço, quando estávamos próximos a Itabuna começou a chover muito forte, e o limpador do para-brisa não dava conta da enchorrada que batia no carro. O colega se lembrou de uma dica que ouvira havia algum tempo: passar pasta dental no para-brisa para que a água escorresse rapidamente. Dito e feito. Paramos o carro e após breve procura nas sacolas achamos restos de pasta, o que resolveu aquele problema.

POSTO FISCAL FERNANDO PRESÍDIO

A ave voou – Certa vez um colega comprou uma certa caça, já preparada para ser devidamente assada e consumida e guardou na geladeira. No fim do plantão, quando foi apanhar a dita cuja, teve uma grande surpresa: sua caça havia sumido! Perguntando aqui e ali, descobriu quem fora o responsável, que na véspera retornara para casa, antes se apropriando da bendita caça. Mas no plantão seguinte o colega preparou a sua vingança: como o tal fazia uso frequente de leite liquido, que ficava guardado na geladeira, tão logo chegou ao trabalho misturou uma generosa quantidade de uma substancia purgativa ao leite, o que resultou num desarranjo intestinal que inclusive levou o sujeito a procurar ajuda médica. Nunca se soube se o responsável pelo furto algum dia associou os dois fatos.

Olha a peixeira – Chegando ao refeitório, para almoçarmos ficamos olhando surpresos para uma colega que, munida de uma grande faca de cozinha, preparava e comia as verduras que normalmente ingerimos cozidas. O colega então indagou:

- Não entendi nada, porque você não cozinha as verduras antes de comer?

Ao que eu, a título de brincadeira e antes que a colega respondesse, falei:

- Mas rapaz, não tem gente que engole fogo? Então, ela gosta de comer essas verduras ao natural!

E então, muito chateada ela nos deu um olhar raivoso e murmurou explicações referentes ao cuidado com a saúde, etc... Mais tarde, quando nos encontrávamos afastados, o colega, que é muito espirituoso, expressou sua preocupação:

- Rapaz, você é maluco? Quando você fez aquele comentário e ela nos lançou aquele olhar, ao ver a peixeira na sua mão lembrei na hora da cena do banheiro no filme Psicose!

Caímos na risada e depois procuramos maneirar nas conversas com a colega.

Pé quente – Numa véspera de término de plantão recebemos a visita de um colega que fazia parte do sindicato fazendário e estava indo realizar uns serviços junto ao pessoal que atuava na Inspetoria de Juazeiro. Como ele iria retornar no dia seguinte pela manhã para Salvador, ofereceu carona, ao que eu e outro colega, que tínhamos ido de ônibus, aceitamos de bom grado.

Aconteceu que essa foi uma das viagens mais estressantes e assustadoras que fizemos. O do sindicato corria demais e apesar de naquela época a rodovia (BR-407) se encontrar repleta de buracos, ele não deu nenhum desconto, tanto é que por duas vezes tivemos que parar para reparar os pneus! Porém o trecho pior foi depois de Feira de Santana, quando pegamos a BR-324. Como o asfalto nessa rodovia estava melhor, a despeito de falarmos com ele para reduzir a velocidade, ele levava na brincadeira e corria parecendo um motorista de fórmula 1!

E para fechar a viagem com chave de ouro, quando chegamos no final do Acesso Norte faltou gasolina e tivemos que ir empurrando o carro até um posto de combustíveis que existia perto do Shopping Iguatemi. À noite liguei para o colega que aceitou carona comigo e ele me disse que ainda estava tremendo e me confessou que nunca havia rezado tanto, pois na viagem prometeu a todos os santos que se chegasse com vida a Salvador, nunca mais entraria numa barca furada igual àquela.

POSTO FISCAL FRANCISCO HEREDA

Provocação – Numa certa manhã, ao retornar ao serviço encontrei uma situação pendente de solução: durante a madrugada, ao receber um manifesto de carga correspondente a grande quantidade de notas fiscais, chegou um momento que o colega se impacientou e para adiantar o serviço passou a retirar as vias das notas fiscais de forma meio abrupta, o que em alguns casos rasgava as pontas de outras vias dos documentos. O motorista que já se encontrava nervoso com o tempo despendido enquanto aguardava a sua liberação, perguntou ao colega:

- Aqui não tem nenhum ratinho não?

O colega, que pelo visto não se lembrou que o extrator de grampo às vezes recebia aquela denominação, tomou aquela indagação como uma afronta, supondo que estava sendo chamado de rato (ladrão). E sem contar conversa disse que ladrão era o responsável pelo transporte da carga e lançou a seguinte pergunta:

- O senhor está menstruado?

Daí a situação se descontrolou de tal forma, que o motorista terminou sendo detido até que eu chegasse ao batente, para apaziguar a situação e liberá-lo para seguir viagem.

Lapso – Um motorista apresentou uma nota fiscal que se referia a uma carga que era transportada em comboio em dois caminhões, porém o primeiro transportador passara direto, sem fazer a parada obrigatória no posto fiscal. O colega ponderou para ele que o outro motorista teria que retornar, para que toda a mercadoria fosse fiscalizada. O motorista então sugeriu a liberação de uma viatura, para que ele próprio fosse atras do primeiro caminhão, ao que o colega, no automático, autorizou o uso do carro oficial! Ainda bem que no momento em que o motorista ia dar a arrancada no carro, outro colega mais atento percebeu a situação, saindo com um policial em busca do caminhão.

Bate papo - Antes da liberação da Linha Verde, nas idas de Salvador a Aracaju utilizava-se a BA-093 e a BR-101, sendo que na rodovia estadual existia um trecho repleto de quebra-molas. Certa feita eu e mais dois colegas fomos no carro de um outro colega, que apesar de apresentar uma pequena gagueira, era muito falante. Quando passávamos na região dos quebra-molas, teve um momento em que ele começou a falar comigo, que estava no banco de traz, e para tanto parece que ele se esquecia que estava dirigindo e virava o rosto para trás, nos deixando muito apreensivos. Então, pedimos que ele deixasse para contar seus casos após a chegada ao posto fiscal...

POSTO FISCAL HONORATO VIANNA DE CASTRO

Intimidação – Uma ferramenta utilizada para recolher grãos de sacos fechados e coibir a prática de colocar produtos tributáveis pelo ICMS disfarçados sob produtos isentos é o furão, uma espécie de lança, com a ponta fina e uma parte oca, que servia para recolher grãos e outras mercadorias que estivessem camufladas no meio do caminhão.

Numa manhã, o colega que pernoitara no plantão nos contou que durante a madrugada, quando falou que iria subir numa carga de frutas para averiguar se havia outros produtos escondidos, o motorista lhe pediu que não usasse o furão, pois senão iria estragar parte da carga. Nesse ponto ele sacou um revólver e disse:

- E quem vai me impedir de fazer isso?

Ele se impôs de forma autoritária, subindo no caminhão, sem se preocupar com aquelas alegações. E o pior é que não existia nenhuma mercadoria tributável oculta na carga.

Situação precária – Havia um colega que era meio descuidado no modo de se vestir. Numa época de greve do fisco, quando estávamos no meio de uma contenda entre o pessoal do sindicato fazendário e as autoridades da administração, inclusive agentes do DICO (Departamento de Investigação Controle e Orientação), um colega do sindicato começou a discursar sobre a defasagem dos nossos salários, quando viu o mencionado colega, que para variar estava com uma camisa meio puída, e tomando-o como exemplo, deu uma volta nele e disse:

- Olhem colegas, aqui nós temos um exemplo vivo da precariedade de nossa remuneração! Vejam bem a que ponto nós chegamos!

Briga pelos pontos – A prática de pontuação mensal da Sefaz objetivava um maior desempenho por parte dos seus agentes, visando um aumento da arrecadação. Desse modo todos tinham como objetivo atingir a meta para poder auferir os 100% da gratificação fiscal. Houve uma situação na fiscalização que gerou dúvida quanto à possível irregularidade de diversas operações com fibras de sisal procedentes da região de Serrinha e que eram estocadas nas docas do Porto de Salvador, para posterior exportação com o benefício da imunidade.

As duas turmas plantonistas foram orientadas a emitir os termos de apreensão, nomeando a empresa exportadora como fiel depositária, deixando as cargas seguirem para o armazém do porto, enquanto a operação era devidamente analisada, para posterior decisão se seria ou não tributada pelo ICMS. A situação perdurou por alguns meses, e quando assumimos o plantão na segunda turma, de 06 a 10 do mês, recebemos o resultado da avaliação, sendo determinado que lavrássemos os autos de infração referentes a todas as apreensões que efetuáramos. Foram tantas as apreensões que passei todo aquele dia de sábado emitindo os autos de infração.

Porém houve o seguinte: durante o período em que as apreensões ocorreram nossa equipe efetuou um número muito maior de ações do que a outra turma. Entretanto, em decorrência dos rodízios rotineiros, um colega que antes fazia parte da nossa equipe, foi escalado na outra turma. Tão logo ficou sabendo da decisão, ele começou a me pressionar para que eu emitisse os autos de infração com datas retroativas ao mês anterior, o que não pude atender, principalmente porque já havia lavrado outros autos nos primeiros dias do mês, referentes a situações pendentes que se encontravam na sede, e eu sempre fiz questão de atender a ordem cronológica na emissão dos autos de infração.

Insatisfeito e apesar de mostrar para ele que aquele tipo de situação era comum em decorrência do sistema de rodízio nas escalas de plantão, ele passou a me ameaçar e só não ocorreu uma agressão física devido à intervenção dos demais colegas e dos policiais militares. Como resultado, ficamos sem nos falar por um bom período, tendo ele se convertido no único desafeto que tive no longo tempo que trabalhei no serviço público. Felizmente meses depois tudo passou.

Truculência – Convivemos com um colega auditor fiscal que se achava dono do poder sobre todos os demais, tanto no relacionamento com os contribuintes, com os transportadores de carga ou com os demais colegas e servidores. Ele foi chefe de equipe de uma turma que prestava plantão nos mesmos períodos que eu chefiava o outro grupo. Uma situação que marcou a todos membros das duas equipes ocorreu numa noite quando ele se exasperou de forma desmedida porque o motorista de uma grande transportadora reclamou sobre a demora da agente de tributos que analisava a documentação.

Quando o motorista pediu que a colega agilizasse o serviço, alegando que queria chegar logo a Salvador, o auditor partiu da sala interna em direção ao reclamante, gritou impropérios e ameaçou partir para a agressão física. Houve um burburinho, com ele destratando a própria agente de tributos, quando os membros das duas equipes, inclusive eu e policiais acorremos para tentar apaziguar os ânimos, porém ele optou por destratar a colega responsável pelo serviço.

E a situação piorou quando o segundo motorista do caminhão, que despertou com a gritaria, foi em auxílio do companheiro. O referido colega perdeu de vez o controle e determinou aos policiais militares que efetuassem a detenção dos dois motoristas, conduzindo-os em seguida para a delegacia de polícia da cidade de Candeias, onde registrou a ocorrência, alegando que houvera desrespeito a sua autoridade, sendo os dois motoristas recolhidos ao xadrez.

Após o retorno do grupo ao posto fiscal, quando tomamos conhecimento do resultado da situação, mantive contato com a administração em Salvador, que no dia seguinte resolveu a situação junto à transportadora, providenciando a liberação dos motoristas.

Ao pé da letra – Havia um agente de tributos que era muito dedicado ao trabalho, porém extremamente apegado ao rigor da lei. Numa oportunidade estávamos na unidade de saída da capital, quando um representante comercial de uma indústria de tintas do sudeste parou o automóvel e se dirigiu ao posto fiscal, e alegou que estava acompanhando um caminhão da empresa, que estava fazendo entregas na região metropolitana, porém se desencontrara do caminhoneiro. Como ele estava com a pasta das notas fiscais precisava localizá-lo para efetuar o restante das entregas junto a clientes localizados na região de Candeias. E seguiu para o local da próxima entrega, para tentar localizar o veículo transportador.

Decorridos alguns minutos, eis que para no posto o referido caminhão, momento em que o mencionado colega com bastante entusiasmo ressaltou que toda a mercadoria estava irregular, porque encontrava-se desacompanhada das notas fiscais. Determinei que ele com outro colega fizessem o levantamento da mercadoria transportada, para aguardarmos o retorno do representante. E quando este chegou, constatamos que toda a mercadoria se encontrava documentada. Porém por mais que fizéssemos ver que o fato de a documentação se encontrar de posse do representante por si só não representava uma infração, uma vez que todos os dados das mercadorias estavam completamente corretos, ele ficou revoltadíssimo com a decisão de liberação da mercadoria.

Esperteza – Tivemos um colega que era mestre na arte de burlar a atenção dos demais, para a cada momento tirar certas vantagens. Felizmente era muito conhecido pelas artes que praticava, como pegar objetos alheios “emprestados” para uso pessoal, como sabonetes, pasta dental, toalhas etc. Outra artimanha utilizada por ele consistia em disfarçadamente trocar as comandas das refeições, quando íamos em pequenos grupos para restaurantes das proximidades do posto, quando não dispúnhamos dos serviços de uma cozinheira no refeitório da unidade fiscal. Então, como ele era enorme e se alimentava com fartura, usava esse expediente para tirar vantagem sobre os descuidados...

Haja rigor – Um dos agentes de tributos mais qualificados e dedicados ao trabalho que trabalhou comigo, às vezes extrapolava nas atitudes. Numa oportunidade, por mais que insistíssemos sobre a insignificância de uma pequena irregularidade que ele detectara, não arredou o pé de suas convicções, exigindo que o motorista fizesse uma longa viagem de forma desnecessária. Foi o seguinte: o caminhão saíra do estado de Pernambuco carregado de sacos de gesso, sendo a carga destinada a diversos clientes estabelecidos no percurso, sendo que as últimas entregas se destinavam a Salvador. Ocorreu que ao fazer a verificação da documentação fiscal, o colega percebeu que a nota fiscal referente a uma das entregas em Salvador encontrava-se sem a via do fisco da Bahia, porém estava com a via do fisco de origem. Realmente era uma falha, porém à exceção desse fato tudo estava em ordem, e aquela troca da via da nota fiscal não resultaria em prejuízo ao fisco estadual.

Apesar de nossos argumentos, ele fez questão de reter a carga até que a via correta fosse apresentada. E o motorista teve que retornar por meio de caronas pelos postos fiscais onde transitara, até localizar a via do documento, para levar de volta até o nosso posto fiscal.

Driblando a fiscalização – Uma das vias utilizadas pelos transportadores de carga para fugirem da fiscalização era o conhecido Canal de Tráfego, acessado antes do posto fiscal, passando por Camaçari, seguindo depois até o destino final. Essa ação visava efetuar entrega dos produtos sem passar pela fiscalização, para realizar uma outra operação utilizando-se dos mesmos documentos fiscais, que na segunda viagem poderiam ser apresentados normalmente no posto fiscal.

Sabedores desse estratagema, quando a demanda do trabalho permitia, deslocávamos uma equipe para fazer verdadeiras tocaias ao longo daquele desvio. E numa determinada noite uma equipe que nos precedia no plantão adotou a seguinte estratégia: ao abordar um transportador por demais conhecido, que conduzia uma carga de farinha de mandioca, na época normalmente tributada pelo ICMS, fez a liberação sem dar o respectivo visto na primeira via da nota fiscal, porém retirando um pequeno pedaço de uma das vias do documento.

No dia seguinte ao assumir o plantão, o colega me passou as informações, assim como o pedaço de papel e o número da nota fiscal, para que ficássemos atentos à nova carga que deveria passar durante o dia. Orientações repassadas, todos ficaram atentos para a passagem do caminhão. E não deu outra: lá pro final da tarde eis que chega o veículo carregado à nossa unidade. Quando afirmei para o costumeiro sonegador que sabia que ele estava reutilizando aquele documento fiscal, ele demonstrou enorme surpresa, porém foi obrigado a se submeter ao rigor da lei ao encarar as provas materiais que dispúnhamos. Pagou os valores apurados, porém não se conformou com a cilada que lhe fora armada, sentindo-se totalmente enganado!

Olha a cana! – Um fato inusitado aconteceu durante uma manhã, tendo como atores alguns policiais de plantão. Ao perceberem que um caminhão carregado de cana-de-açúcar transitava pela rodovia sem fazer a parada obrigatória, eles acionaram os apitos e fizeram gestos, instando o motorista a parar o veículo. Acontece que o motorista não obedeceu a sinalização e um sujeito que viajava de carona sobre a carga levantou-se e após fazer um gesto muito conhecido e desrespeitoso, gritou “olha aqui a cana!”. Revoltados, os policiais entraram no posto e solicitaram autorização para irem em busca do caminhão, pedido de imediato atendido.

Quando retornaram com o caminhão, tendo o motorista alegado que não observara o chamamento e considerando que a carga estava totalmente legal, o liberamos. Já quanto ao sujeito que lhes faltara com o respeito, os policiais quiseram dar-lhe uma sova, o que remediamos deixando o ousado detido nos fundos da unidade, onde ficou durante todo o dia, antes de ser liberado.

Cara ousado – num dia de sábado pela manhã, como o movimento estava fraco no posto fiscal, eu e uma colega com um policial militar ao volante saímos para fazer uma ronda pela região, tentando localizar cargas irregulares. Fomos a Candeias, cidade bastante enladeirada e que apresenta às vezes um tráfego lento, como ocorreu naquela oportunidade.

Em certo momento um homem que dirigia um fusquinha se aproximou da viatura e começou a buzinar e a fazer gestos, pedindo passagem. Como a via não permitia a passagem de dois veículos ao mesmo tempo, a situação perdurou por mais algum tempo, quando então, devido à insistência do sujeito, o policial fez um sinal com o braço, como que mandando que ele passasse por sobre a viatura. Muito exasperado, quando conseguiu uma pequena oportunidade ele nos ultrapassou, quando mostrou o dedo e gritou impropérios, numa ação bastante desrespeitosa, especialmente por se tratar de uma viatura oficial, conduzida por um policial militar fardado e com uma senhora no veículo.

Em vista do ocorrido autorizei o policial a seguir o fusca e passamos a persegui-lo, visando interpelá-lo e mostrar que ele incorrera em uma falta grave. Quando ele se sentiu perseguido aumentou a velocidade e se dirigiu para a delegacia de polícia da cidade, em busca de proteção. Porém, por coincidência, a delegada titular era prima do policial da nossa equipe e após fazermos o relato preciso dos fatos, o agressor foi repreendido, ficando detido por algum tempo, para poder esfriar a cabeça! E vimos que se tratava de um representante comercial de uma grande indústria de alimentos do sudeste.

Espionagem – Em um final de tarde de sábado, ao analisarmos a documentação de uma carga procedente de São Paulo e com destino final em Pernambuco, nos chamou a atenção o fato de que o transportador se desviara do itinerário normal apenas para efetuar a entrega de uma pequena peça em Salvador. Como desconfiamos que toda a carga seria entregue na unidade da empresa de nossa capital, liberamos o caminhão e designamos uma equipe para segui-lo, que constatou que ele iria descansar à noite num posto de combustíveis perto de Salvador.

Pela manhã bem cedo fomos eu, com outro colega e um policial para o local e aguardamos o desfecho. Mais tarde ele seguiu viagem e foi parar exatamente ao lado da empresa destinatária da pequena peça, que ficava ao lado da nossa sede no bairro do Imbui, onde o caminhão deu entrada. Lembrei-me de uma colega e amiga que morava num prédio que estava voltado para aquele ponto. Fui até lá e ela autorizou o acesso: assim, fiquei numa posição estratégica, observando o movimento na empresa. Quando toda a mercadoria foi descarregada fizemos a abordagem, que resultou no competente auto de infração, que foi devidamente quitado na segunda feira.

GRUPO VISTORIA

Descuido na abordagem – Nesse grupo eu supervisionava a equipe da linha de frente, enquanto a outra supervisora se dedicava a tratar com os contribuintes que nos procuravam para discutir sobre seus pleitos, apresentar documentos e outros elementos, tudo voltado para a conclusão dos pedidos ou de forma favorável ou pelo indeferimento da solicitação do contribuinte.

Durante o diálogo com os contribuintes a supervisora tentava colher detalhes sobre a estrutura, a localização da empresa etc, para emitir a sua conclusão sobre o objetivo pleiteado. Num determinado dia, após a verificação da documentação apresentada, ela fez a seguinte pergunta para o contribuinte: “Qual é o tamanho do seu negócio?”. O marido dela, que se encontrava presente, aguardando o fim do expediente, tomou o maior susto. Após ficarem sós ele perguntou se ela estava maluca para fazer aquele tipo de pergunta.

Depois disso ela mudou o termo de “negócio” para “empreendimento”...

(*) Auditor Fiscal aposentado. Filiado ao IAF Sindical.

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