BAIANA NÃO PERDOA! MATA!
Viver aquele momento foi trágico. Fato passado, porém, tornou-se motivo de boas gargalhadas, pois a situação foi também hilária.
Quem já viu sabe que estar na Bahia, em Salvador, no período de 8 de dezembro até a Quarta-Feira de Cinzas, é zoeira total. Quem fica de fora só pode ser ruim da cabeça ou doente do pé, conforme diz a música.
É um inferno para as pessoas sossegadas, uma tentação para os festeiros, uma curtição para os solteiros. Quando chega a Quarta-Feira de Cinzas, que alívio! Balanço fechado: entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Graças a Deus!
Pois bem! Foi assim com aquela família recém-chegada do interior, ansiosa para participar de uma das festas mais desejadas — como tantas outras festas baianas, sagradas e profanas —: a que acontece no dia 1º de janeiro, a Festa da Boa Viagem. E, para compartilhar esse momento, convidaram alguns amigos que vinham do interior.
A procissão marítima traz o Bom Jesus dos Navegantes numa enorme galeota, que avança mar adentro, acompanhada de tantas outras embarcações, para ir ao encontro de Nossa Senhora da Boa Viagem, a grande homenageada do dia.
O percurso vai da Igreja da Conceição da Praia, junto ao Elevador Lacerda, até o bairro da Boa Viagem, próximo ao Bonfim, numa distância de quase 8 km.
Nesse trajeto, faz-se grande barulho: muita festa, dança e também muitos cânticos religiosos, ao menos na embarcação em que segue o ilustre convidado, o Bom Jesus dos Navegantes, que desembarca no clímax da festa profana.
Como marinheiros de primeira viagem, os personagens desta história não poderiam ter escolhido lugar mais impróprio para o encontro com seus amigos, vindos do interior do Estado.
Marcaram encontro em frente à Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, às 12 horas, naquele dia de festa em que a multidão toma conta do largo. Detalhe: naquela época não havia telefone celular.
Quem conhece sabe que cometeram uma barbaridade, pois o espaço é apertado. Todos os religiosos querem entrar na igreja ao mesmo tempo; os profanos, por sua vez, chegam ávidos por uma cerveja; os pernoitados já não se aguentam em pé e são levados pelo som das músicas, embalados por ritmos variados.
Com o efeito da bebida, já não são mais de ninguém — e são de quem os levar. Nesse dia, formavam círculos em torno de belas baianas enfileiradas, que vendiam deliciosos quitutes em seus enormes tabuleiros.
Para começar, assim que as meninas desta história chegaram à Boa Viagem, viram o povo chegando, todos cheios de emoção e contagiados pela euforia da festa, ansiosos para presenciar a chegada das embarcações.
Elas encostaram-se na balaustrada, situada a aproximadamente cinco metros de altura em relação à areia da praia, lá embaixo.
Quando menos esperavam, alguém empurrou uma delas. Ela olhou para cima, mas não teve tempo nem de respirar: a outra irmã caiu também, sem aviso. E assim caiu mais um, depois outro, todos empurrados. Elas perceberam que não podiam permanecer ali, pois corriam o risco de alguém cair sobre suas cabeças. Saíram do local apavoradas.
Na correria pela areia da praia, uma cena chocante: um homem contorcia-se de dor, quase desmaiando, por causa de queimaduras provocadas por azeite de dendê quente, derramado do tacho de uma baiana de acarajé. Alguns acudiam; outros passavam virando o rosto, franzindo a testa e fechando os olhos, desviando-se de tamanho sofrimento.
Mais adiante, a saída dos navegantes do mar: todos ao mesmo tempo querendo subir uma pequena escada de seis degraus, que ligava a praia à calçada da rua. Um agarrado à cintura do outro, mais pareciam uma corda de caranguejos.
Subiam até a metade da escada — um, dois, três degraus — e voltavam todos de costas, porque a corrente humana atrás engrossava e empurrava. Era como um trem descarrilando: um passo adiante, dois para trás.
Naquela agonia, nossas meninas já estavam desesperadas, arrependidas, suando por todos os poros. Desistir já não podiam mais. Entraram no “vai ou racha”.
Eis que surgiu um “saradão”, negro forte, quem sabe um capoeirista musculoso. Uma delas agarrou-se à sua cintura e, num solavanco, quando se deram conta, já estavam lá em cima, na calçada.
Ufa! Graças a Deus, conseguiram sair.
Mas ainda não podiam sossegar. Como ondas do mar, os bêbados, os pernoitados e os aderentes já estavam no ponto em que não distinguiam alhos de bugalhos. Todo mundo que caía naquela rede, para eles, era peixe.
Faziam coro em volta das baianas, bem vestidas e com seus tabuleiros — um maior que o outro — repletos de delícias baianas.
Uma das visitantes, assustada e querendo encurtar caminho para livrar-se logo daquela fuzarca, vislumbrou uma brecha entre um tabuleiro e outro. Achou que podia passar por ali. Porém, não conseguia ver além, pois os tabuleiros eram enfeitados com rendas até o chão.
Ela avançou mesmo assim.
E o pé caiu dentro de um tacho de azeite, que estava sobre um fogareiro de carvão em brasa.
O fogareiro virou. O tacho tombou. E a mocinha esborrachou-se no chão.
Por sorte, o azeite estava morno.
Seu outro pé bateu em um dos tabuleiros, fazendo tudo cair por terra. Toda aquela guloseima perdeu-se, lambuzada no chão. A rapaziada embriagada, mais que depressa, avançou e devorou tudo. Foi aquela comilança!
A mocinha levantou-se rapidamente, fez alguns cálculos mentais e concluiu que não teria como pagar aquele prejuízo, pois ganhava pouco.
Sem alternativa, redimiu-se diante da baiana:
— Ô, baiana, me perdoe!
Não teve tempo de aguardar a resposta.
A baiana, enfurecida, puxou uma grande peixeira e avançou para matar.
Mas a menina era ligeira e, num instinto de defesa, pulou para trás. Graças a Deus havia muita gente naquele local. Foi sua salvação.
O povo embaralhou a baiana e, em meio à multidão, a menina desapareceu como um filhote de nambu.
E coitada! Até reencontrar seus companheiros, foi como uma via-crúcis. Entrava numa barraca, saía noutra, mais parecia um gato assustado.
E qual não era sua sensação de morte quando a barraca não tinha saída! À sua frente, só via a imagem da baiana com a peixeira brilhando, estendida em sua direção.
Com o coração pulando no peito, ninguém entendia nada do que ela falava. Apenas repetia:
— A baiana!... A baiana quer me matar!
E assim percorreu grande parte das barracas. Parecia não ter fim aquele calvário.
Finalmente, já sem uma gota de sangue na face, apenas suor frio cobrindo-lhe a testa, reencontrou seus familiares, a quem disse:
— Vamos embora! Vamos sair daqui… A baiana quer me matar!
Descalça, toda suja de azeite e apavorada, logo os amigos compreenderam que algo terrível havia acontecido.
Em seguida, chegou sua irmã, que contou toda a história, à qual assistira de longe, sem se manifestar.
Nem é preciso dizer do desapontamento da baiana, que, sem ter o que fazer, praguejou.
Por muito tempo, nossa mocinha fugiu das baianas. Até perdeu o gosto por acarajés e abarás. Toda vez que se aproximava de uma delas, pensava:
Será que foi esta? Melhor não saber!
Susto passado, caso contado para aliviar a angústia, ainda teve de suportar muitas gozações:
— Como foi a história?
— Cadê a baiana?
Ou ainda, com fundo musical, parafraseando os filmes de Django:
Tan, tan, ran, ran…
Baiana não perdoa! Mata!
Isso aconteceu em 1º de janeiro de 1975.
E eu estava lá.
Auditor Fiscal aposentada da Sefaz/BA,
Maria de Lourdes dos Santos Costa.
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