14/04/2026

Eu, um Auditor jurado de morte

Aconteceu no início da primeira década deste milênio. Como era praxe naqueles idos, o auditor do comércio deveria estar em sua Inspetoria ao menos um dia por semana. O meu dia na Infaz Cruz das Almas era às quartas-feiras. Deixo registrado que era um dia auspicioso para mim, desejado mesmo. O convívio com todos os colegas daquela unidade — do inspetor à servidora da limpeza — era muito caloroso e fraterno. Mas aquele dia foi diferente, tenso, jamais imaginado. Eis o relato (nota: os nomes das pessoas e da empresa envolvida são, por prudência, fictícios):

Parei o carro no estacionamento, como sempre, e adentrei pela lateral do prédio, como de hábito. No hall da cozinha, contíguo ao grande corredor que dá acesso a todas as salas da Inspetoria, fui saudado por um dos motoristas que nos davam apoio logístico. Caio não trazia no rosto o sorriso aberto costumeiro; ao contrário, não escondia a enorme preocupação: “Geraldo, recomendo que você não vá a Governador Mangabeira tão cedo!” (cidade da circunscrição fazendária). “Eu estava acompanhando Anunciação numa intimação ao Supermercado Barateiro e ouvi o dono, muito exaltado, afirmar que, se você entrasse em Governador Mangabeira, seria um homem morto...”. Suei frio! (literalmente). “Que conversa é essa, Caio?”, inquiri, nervoso e exaltado. “Converse com Anunciação, ela vai lhe dar detalhes...”.

Atônito, abandonando o rito de saudações e abraços da chegada, dirigi-me imediatamente à sala dos auditores e questionei a colega a respeito: “É verdade, Geraldo; ele se negou a dar ciência à Intimação Fiscal; ficou exaltado; disse que estava ‘quebrado’ e que a culpa era sua; e afirmou que, se você entrasse em Governador Mangabeira, seria um homem morto...”.

Não consigo descrever o pânico daquele instante. Eu estava em um momento emocional frágil, por circunstâncias que não cabe narrar. E pairava, na memória dos auditores da Sefaz, a tragédia — recente à época — do covarde assassinato de um colega em atividade contra a chamada ‘máfia do açúcar’, em Juazeiro/BA.

Emocionalmente descompensado, corri até o gabinete do inspetor e pedi ajuda. Simplesmente, eu não sabia o que fazer. Meu apelo único era: “ele precisa ser preso... ele precisa ser preso!”. O competente líder João Alberto, conhecido, dentre tantas qualidades, por sua moderação, não conseguia disfarçar a preocupação. Ligou imediatamente para o diretor da DAT Norte, o igualmente competente e moderado João Luiz. Este pediu para falar comigo, tentou me estabilizar emocionalmente e me garantiu que a Sefaz iria “comprar essa briga”; que a tragédia de Juazeiro não repetiria em Cruz das Almas.

Aqui cabe dizer que eu auditara aquele supermercado uma única vez, cerca de três anos antes do terrível dia dos eventos narrados. Na ocasião, lavrei um auto de infração de valor considerável e bem fundamentado, de modo que o litigante não logrou êxito em sua defesa no Cosef.

Pois bem: alguns dias (e noites mal dormidas) depois, recebi um telefonema do meu então inspetor, convocando-me para uma reunião no gabinete do diretor da DAT Norte, solicitada pelo dono da empresa em questão. Estariam presentes, além do diretor e do inspetor, o autor do “juramento de morte” e seu advogado. No dia marcado, com os nervos em frangalhos, dirigi-me ao referido gabinete. O diretor estava furioso, muito diferente daquele homem cordial e moderado que todos nós conhecíamos. Abriu a reunião com uma breve exposição dos acontecimentos e, peremptoriamente, arguiu o autor quanto aos fatos. Mas foi o advogado quem tomou a palavra. Disse que seu cliente era um homem pacífico; que estava passando por enormes dificuldades financeiras; que tal situação havia sido indevidamente atribuída a mim, mas que, a bem da verdade, reconhecia que a causa maior de sua iminente bancarrota fora sua candidatura fracassada à prefeitura da já citada cidade; que, no dia do “desabafo”, estava depressivo e havia tomado “algumas cervejas” e que, por isso, disse “aquelas bobagens”; que eu as desconsiderasse...

Pois bem... após o desagravo, nada mais havia a ser feito. Voltei para casa e tratei de tentar recompor meu estado emocional. Mas fiquei curioso quanto ao que teria acontecido no interregno entre o “juramento de morte” e aquela reunião. Busquei minhas fontes na sede da DAT Norte, em Feira de Santana, onde moro, e o relato obtido foi o seguinte: após tomar conhecimento dos graves fatos, o diretor enviara àquele supermercado uma unidade do trânsito de mercadorias conhecida na DAT Norte como “SWAT”. Tal apelido se devia à sua competência e, sobretudo, ao seu destemor. São lendárias as histórias de abordagens no trânsito atribuídas a esse bravo time; uma delas, inclusive, foi notícia na afiliada local da TV Globo (assisti a essa reportagem no BA TV): uma carreta que “furou” uma blitz foi perseguida e parada a tiros (nos pneus) pela equipe. Pois foi ela que teria sido enviada ao supermercado do “juramentista” para uma temida auditoria de estoques em aberto. Chegando lá, fora recebida pelo próprio — e “pacífico” — dono do estabelecimento, que esbravejou e disse que “ninguém da Sefaz entraria tão cedo em seu estabelecimento”; o colega voltou ao carro da Sefaz e retornou imediatamente, acompanhado do policial de apoio e empunhando um reluzente “.38 cano longo prateado”; o valentão, então, teria recuado, e daí teria surgido o pedido de reunião e o desagravo a este auditor ameaçado.

O caso foi dado por encerrado. O diretor da época, que hoje ocupa um cargo ainda mais elevado na hierarquia da Sefaz, talvez nem se lembre e, com certeza, não faz ideia da gratidão e estima que lhe tenho desde então. Como desdobramento e medida adicional de segurança, meu supervisor à época, o competente colega André Luiz, nunca mais emitiu para mim O.S. para aquela cidade. A bem da verdade, desde então, mesmo depois de aposentado, nunca mais pisei em Governador Mangabeira. Inconscientemente, ainda sou um auditor jurado de morte.

(*) Auditor Fiscal aposentado, Sefaz/BA.

compartilhar notícia

Comentários

Gostaria de dar sua opinião sobre o assunto? Preencha os campos abaixo e participe da discussão