Transplante fracassado

Como carne e unha, Danilo e Daniel eram amigos inseparáveis. Contemporâneos e de idêntica profissão, dificilmente se apartavam, notadamente nas costumeiras aventuras extraconjugais. Nesse desiderato, é bom que se diga que, embora casados, setentões e de boa reputação, ambos “pulavam a cerca”, em busca de mulheres desimpedidas — aí compreendidas as encalhadas, as que transavam por grana (as famosas “cinquentinhas”!) —, também não esquecendo as emergentes secretárias do lar.
Devemos salientar que Danilo se deu melhor na vida, alcançando enorme sucesso empresarial, o que o levou a ingressar na política, galgando rapidamente o cargo de chefe do Executivo do município de Catolé. Desse modo, soava como natural que o amigo caminhoneiro imitasse o comportamento do prefeito, que gozava de maior projeção social, só que com o agravante de que Daniel não perdia a mania de pechinchar em tudo o que fosse adquirir.
Pois bem! Embora ultimamente afastados devido aos afazeres da ocupação, ainda assim a amizade continuava viva, e Daniel, sempre atento, ficava de olho nas andanças do poderoso companheiro, jamais o perdendo de vista.
Danilo, por seu turno, aproveitando uma brecha em sua agenda pública, foi à procura do fiel parceiro, pois precisava desabafar sobre um assunto que estava lhe atormentando a vida, prejudicando até mesmo suas noites de sono. Encontro marcado, Danilo confessou, amargurado, que talvez, por conta das coisas da política, vinha observando uma queda na libido. A verdade é que estava perdendo o interesse pela mulherada, o que o levou a buscar atendimento com um urologista, cujo diagnóstico não foi nada animador. Ao invés de uma simples receita, o profissional recomendou que ele procurasse um centro mais desenvolvido, pois seu caso não era terapêutico: carecia de fazer um transplante de membro, única solução possível para a cura definitiva do problema.
Daniel ouviu atentamente a queixa do amigo e, de pronto, encorajou-o a enfrentar a situação, ficando na espreita, de camarote, aguardando o desfecho da questão. Não revelara a Danilo, mas a realidade é que também estava acometido do mesmo drama.
Danilo agradeceu o apoio do companheiro e, após o feriado de carnaval, abandonou os eleitores e voou para New York — considerado o melhor centro mundial no tratamento da disfunção erétil — para buscar a solução de seu sofrimento.
Transcorrida pouco mais de uma quinzena, eis que o prefeito retornou eufórico à sua cidade natal, ansioso para contar a boa nova ao amigo do peito. Cidade pequena, de muita fofoca, logo a notícia do sucesso da cirurgia espalhou-se e, assim que soube da ocorrência, Daniel foi ao encontro do prefeito para saber, de viva voz, o que a cidade tanto comentava.
Danilo era só alegria. Estava contente, remoçado, e, após os abraços da chegada, disse que pagara caro, porém o procedimento fora um verdadeiro sucesso — por que não dizer, um milagre da medicina! Contou que, ainda em fase de recuperação, já pudera sentir o efeito do membro enrijecido só de olhar as pernas das aeromoças durante o voo de retorno ao Brasil. Enfim, afirmou que agora tinha absoluta certeza de que estava de volta à vida mundana.
Daniel, perplexo e curioso, ouviu atentamente toda a narrativa do amigo e, com seus botões, achou que finalmente havia encontrado o remédio que também lhe serviria. Não via a hora de tomar o mesmo destino. Perguntou logo o que mais lhe interessava:
— Pagou quanto pela cirurgia?
— Foram US$ 20.000, afora passagens, hospedagem e alimentação — respondeu o amigo.
Daniel fez as contas mentalmente e achou a quantia inviável para suas posses. Contudo, mesmo assim, sentiu-se encorajado e, sem pestanejar, sugestionado pela mudança na autoestima do amigo, jurou que também buscaria o mesmo tratamento. O primeiro passo foi abrir-se e contar ao companheiro que, por coincidência, sofria do mesmo mal e que, como ele, desejava buscar semelhante solução.
Danilo concordou, inclusive prontificando-se a ajudá-lo financeiramente, caso quisesse e necessitasse. Dito e feito, Daniel aceitou a oferta das passagens e da hospedagem e, na semana seguinte, embarcou com destino à mesma clínica, na terra do Tio Sam.
Passado mais de um mês sem notícias do retorno do confidente, Danilo resolveu procurá-lo, pois pressentia que algo não corria bem. Encontrou Daniel recostado em uma rede na varanda de casa, e dali nem se prontificou a levantar para cumprimentá-lo. A visão entristeceu-o: diferentemente de sua própria chegada, Daniel estava cabisbaixo, com ares de deprimido.
Perguntado sobre o resultado da cirurgia, respondeu secamente, arrependido por ter gastado uma fortuna sem obter êxito no procedimento. Danilo tentou contornar a situação, fazendo-o ver que cada caso era um caso e que nem sempre o corpo humano respondia da mesma maneira; enfim, pediu que desse tempo ao tempo antes de qualquer avaliação prematura.
Na despedida, Daniel agradeceu a gentileza do parceiro, porém tinha plena consciência de que, pelo andar da carruagem, seria muito difícil reverter a situação. Pensou que o melhor seria buscar conforto nas orações. E, nesse particular, para que a graça fosse alcançada, tratou de fazer veladas promessas à augusta Padroeira Senhora Santana e esperou pacientemente o desabrochar do novo amanhã.
No entanto, o tempo foi passando e nada de reação. Daniel resignou-se, perdeu o gosto pela vida; seus olhos já não se fixavam nas traseiras das morenas quando as via passar pelas ruas do centro da cidade. Deixou até de frequentar as rodas sociais, pois já era motivo de chacota entre os colegas — ele, que sempre fora respeitado entre seus pares, que jamais negara fogo nas labutas com o belo sexo!
Foi então que Danilo, sensibilizado pela circunstância, resolveu esclarecer o episódio. Decidiu ter uma conversa franca e aberta com Daniel, até porque, de certa forma, sentia-se responsável pelo drama do amigo. Sua consciência pesava, pois fora dele a sugestão de buscar recurso na medicina em terras alheias, d’além-mar.
Para não causar constrangimento, marcou uma visita protocolar, sem testemunhas.
E foi numa manhã de domingo, logo após a missa, que Danilo chegou à presença do companheiro. Em tom amistoso, sem rodeios, foi direto ao assunto:
— E aí, meu caro, já voltou o apetite?
— Nada!
— Você foi à mesma clínica que lhe indiquei?
— É claro!
— Procurou o mesmo médico?
— Sim, perfeitamente!
— Quanto pagou pelo transplante?
Daniel olhou desconfiado para Danilo e confessou:
— Olha, o Dr. Albert pediu US$ 20.000 pelo procedimento; daí eu pechinchei, pechinchei, e ele acabou deixando por US$ 5.000.
Danilo imediatamente percebeu que havia algo de errado naquela cifra. Tinha certeza de que a mania de barganhar um dia lhe traria problemas — e foi dito e feito.
Levou Daniel para um canto da sala e solicitou:
— Deixe-me ver isso aí.
Daniel hesitou por instantes, mas consentiu e abriu a braguilha. De lá saltou uma flácida evidência do fracasso do procedimento.
Danilo olhou assustado, surpreso pela visão familiar e, em seguida, morrendo de rir, gritou:
— É a minha! É a minha! É a minha!
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