O coletor ambulante e o aluno “Temporão”
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Em meados dos anos 60/70, quando eu era Chefe da Coletoria de Antônio Cardoso, cidade próxima a Feira de Santana, dois fatos, até certo ponto curiosos, marcaram-me duplamente; ambos são díspares, mas têm uma correlação consequente, porque um foi permissivo para que o outro acontecesse.
Quando tomei posse em Antônio Cardoso, logo vi que não poderia morar lá por falta de estrutura para manter a família; então, preferi morar em Feira de Santana, sem prejuízo das atividades da Coletoria, que eram poucas. A principal era receber impostos dos pequenos comerciantes locais, uma vez por mês, e despachar cargas esporádicas de fumo e de gado, as duas principais atividades agropastoris da região.
Uma vez por semana, geralmente às quintas-feiras, eu me deslocava até a Coletoria para resolver problemas locais; mas a maior arrecadação de tributos que eu fazia era em Feira de Santana, na grande feira semanal, ponto de encontro de todas as comunidades vizinhas. Em realidade, eu me tornei um coletor ambulante e me postava em lugares estratégicos, onde os produtores me procuravam para despachar suas vendas de fumo ou de gado e, também, os pequenos comerciantes da região, que achavam mais viável se deslocar para ali do que ter que ir para Antônio Cardoso.
O outro fato tem a ver com a minha formação educacional. Feira de Santana era uma das poucas cidades interioranas da Bahia a possuir o Curso Colegial, que eu havia interrompido no primeiro ano, feito em Salvador, antes de entrar para o serviço público estadual.
Procurei a diretora da escola, meio acanhado, porque a minha situação era “sui generis”: eu, um senhor de trinta anos, teria que frequentar o curso no turno vespertino, no meio de jovens adolescentes e, acima de tudo, fardado com aquelas calças e jaquetas de estilo militar. Mas, depois que me foi permitido fazer a matrícula e frequentar as aulas, não me senti incomodado porque, desde jovem, fui um aluno aplicado e me senti ali como um incentivo para todos os alunos.
O resultado foi que fiz ali o segundo e o terceiro anos colegiais, o que me deu acesso ao vestibular da UFBA, tendo passado em Economia e migrado depois para o curso de Ciências Contábeis.
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