O novo desequilíbrio na fiscalização
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A administração tributária vive uma virada silenciosa e profunda. Nos últimos meses, as atividades de fiscalização e auditoria deixaram de ser apenas uma soma de procedimentos tradicionais para se tornar um trabalho cada vez mais analítico, integrado e sensível a prazos. A cobrança por precisão aumentou, o nível de complexidade subiu e os resultados passaram a ser exigidos com velocidade. No papel, é “modernização”. Na rotina, é uma mudança que ampliou significativamente o esforço necessário para entregar muito mais com qualidade.
O trabalho cresceu em volume, tempo e responsabilidade, mas a remuneração eletiva/variável não acompanhou a nova realidade.
A fiscalização hoje não se resume a verificar documentos ou realizar ações pontuais. Ela inclui, cada vez mais, atividades que demandam concentração técnica, leitura fina de dados, cruzamentos, validações e registros formais que garantam rastreabilidade e segurança na conclusão. O padrão mudou: o que antes era exceção virou regra.
Além disso, a cultura de resultados passou a caminhar com exigências adicionais: entregas em prazos mais curtos, relatórios mais completos, indicadores de desempenho e metas mais pressionadas. Isso traz ganhos institucionais, e impõe uma realidade operacional que precisa ser reconhecida: cresceu o tempo dedicado pelo auditor e demais agentes do fisco para cumprir a mesma cadeia de responsabilidades, agora mais detalhada e mais sensível a falhas.
O “trabalho opcional” que virou essencial
Há um aspecto que merece destaque: tarefas classificadas como opcionais, mas que são decisivas para os resultados do Estado. Entram aqui o acompanhamento de programas de conformidade, informação fiscal, revisão de auditorias, monitoramento preventivo, indução à autorregularização, a checagem de consistência cadastral e o refinamento de análises que evitam retrabalho e fortalecem a efetividade da ação fiscal.
Esse conjunto de ações gera melhor custo-benefício institucional: reduz litígio, aumenta regularização, melhora qualidade da base e amplia eficiência do sistema. O problema é que, quando essas tarefas exigem mais horas e mais responsabilidade, mas retornam ao servidor com um incentivo baixo, em torno de 10% dos ganhos para quem executa, o sistema recompensa pouco exatamente ao que mais entrega.
O sentimento dominante nas equipes é de “mais trabalho”. É de mais trabalho qualificado. Aumento de volume sem aumento proporcional de equipe já é um desafio. Mas, quando o aumento vem acompanhado de complexidade, prazos e necessidade de precisão, o cenário se torna ainda mais sensível.
É nesse contexto que ganha força a percepção (e os registros internos vêm apontando isso) de que a carga de trabalho cresceu em mais de 30% em atividades e tempo dedicado enquanto a remuneração eletiva cresceu menos de 10%. Mesmo que cada área tenha suas particularidades, a fotografia geral parece repetida em diferentes inspetorias: cresce a exigência, mas a contrapartida da remuneração não acompanha.
Quando a administração exige entregas cada vez mais complexas, com alto grau de precisão e prazos apertados, mas não ajusta mecanismos de reconhecimento e remuneração, cria-se um efeito colateral conhecido: o desincentivo silencioso.
Cm esse cenário de limite de tempo e energia, o sistema passa a empurrar as equipes para o cumprimento do mínimo necessário e não para as ações mais estratégicas, que demandam mais horas e entregam melhores resultados.
Se a conformidade e a auditoria moderna são prioridades institucionais, e tudo indica que são, então é preciso reconhecer que o modelo antigo de incentivo não dialoga com o trabalho novo.
Este texto não é um manifesto e nem crítica vazia. É um alerta responsável: o Estado está ampliando o nível de exigência do trabalho fiscal e isso é parte do processo de modernização e de aumento de efetividade. Mas modernização real não é somente tecnologia e meta. É estrutura de trabalho, dimensionamento e incentivo compatível com a complexidade.
A fiscalização está mais sofisticada, mais técnica e mais cobrada. Isso tem elevado resultados e fortalecido o Estado. Mas há um limite que não pode ser ignorado: não existe política pública de eficiência sustentada apenas no aumento contínuo do esforço humano, sem ajuste de incentivo e estrutura.
Se a carga aumentou em mais de 30% e a remuneração eletiva cresceu menos de 10%, há um desequilíbrio que precisa ser tratado com seriedade. Precisa de um modelo em que a complexidade do trabalho seja reconhecida e devidamente valorizada na mesma proporção em que é exigida.
(*) Auditor Fiscal Sefaz/BA
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